quinta-feira, 24 de maio de 2012

"A lembrança de um beijo que não houve..."


Sinto agora este súbito estupor,
Sentimento diáfano, feral,
Eu deponho o exíguo cabedal,
Que extenua todo grande temor.

Destituo a essência desta dor,
Engalano-me tão paradoxal,
Mas engano este meu lado animal,
Que não sabe o que é a dança do amor.

Como toda maçã quando é mordida,
Seu sabor, sua essência vã perdida,
O silêncio do som que não se ouve.

Como tudo que é triste nesta vida,
Nada existe mais forte que a sofrida,
A lembrança de um beijo que não houve.

(Mario Pinho, 24/05/2012)

terça-feira, 17 de abril de 2012

"A venenosa flor"

A semente plantada já brotou,

E nasceu um raminho tão pequeno,

Pouco tempo depois se transformou,

Cresceu tanto, tomou todo o terreno.


Virou flor, ficou bela e encantou,

Suas pétalas lindas tinham um dreno,

E jorrava uma água que nos cegou,

Mas pensei que fosse orvalho do sereno.


Perigosa demais pra quem a achou,

Eis então a flor do amor que assaz condeno,

Já que dessa flor hoje derramou,

O seu mais fulminante e vil veneno.


(Mario Pinho, 16/04/2012)

sábado, 31 de março de 2012

"Gélidas lembranças..."

Eu lembrei-me de um dia feral,

Em razão de um árduo pesadelo,

Sucumbi da montanha em degelo,

E, sozinho, busquei algum sinal.


Tudo estava estranho, tão frial,

Eu andava com fé, calma e zelo,

Procurei a saída, um apelo,

Pra fugir daquele branco-total.


Despertei desse sonho e senti frio,

No espelho o reflexo me sorriu,

Eu sentia-me feliz e mais leve.


Meu cabelo estava bem molhado,

E no corpo inda tinha acumulado,

Uma certa porção daquela neve.


(Mario Pinho, 31/03/2012)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

"O medo aniquila a minha esperança..."

Hoje sinto uma angústia que me cala,

Derradeira e funérea, para mim,

Como a flor murcha e morta no jardim,

O meu grito de dor já me embala.


Dilacero essa dor, tento matá-la,

Transgredindo esse mal, fujo do fim,

Conseguindo ou não, tem que ser assim,

Vou fugir e gritar, mas perco a fala.


O meu medo transmuta-se em dor,

Sinto um grande arrepio de pavor,

Fico trêmulo como uma criança.


Sou refém dessa dor que me faz mal,

Que me deixa perdido sem sinal,

Aniquila a minha esperança.


(Mario Pinho, 29/02/2011)

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"A solitária dor de viver assim..."

De verso em verso, no meu mundo diverso,
Levo a vida, ávida e leve, que me leva além,
Vivo sem mim, com vida, convida-me também,
Soletre-me, sol, entre em mim, universo.

Ser forte... se for te contar que sou o reverso,
Que sou o meu próprio algoz sem ninguém,
Feneço entre a morte e a vida, o mal e o bem,
Ora me acarinho, ora sou um ser perverso.


Mas o meu grande sonho não morreu,
A razão é que hoje não sou mais meu,
Sou daquela que me levou de mim.

Que me envolve com seu langor,
Perdendo o amor, pertenço a dor,
A solitária dor de viver assim.


(Mario Pinho, 26/01/2012)

sábado, 21 de janeiro de 2012

"O medo prossegue resistindo..."

Hoje um medo voltou a aparecer,
Veio como uma tocha incandescente,
Uma fúria nefanda e premente,
Fez o meu coração extremecer.

Com meu sangue agitado a ferver,
Meu calor fez-se frio, rapidamente,
Uma angústia voraz e imponente,
Roubou a minha paz, me fez sofrer.

Fico trêmulo. Choro ao me lembrar,
Vou fugir para o medo não me achar,
Sofrimento abjeto e infindo.

Esse medo ressoa, paralisa,
A navalha na mão criminaliza,
Mas o medo prossegue resistindo.

(Mario Pinho, 14/01/2012)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

"O besouro e a flor"

Num longínquo e pacato jardim, havia uma flor muito linda, ela era belíssima mesmo, e com um perfume tão agradável que todos que passavam comentavam de sua beleza e queriam vê-la de perto.

Até as outras flores a olhavam com certa admiração, os pássaros e insetos a observavam também fascinados. Tudo ali girava em torno disso, da admiração coletiva àquela flor.

Mas num belo dia apareceu um besouro no jardim. Ele era muito estranho, de modos e traços rudes, uma aparência tão grotesca que inspirava o medo nos demais que o viam.

O feioso besouro também ficou encantado com aquela bela flor, pois nunca havia visto uma flor com tanta formosura assim, e pôs-se, então, a admirá-la. Sempre de longe e muito bem escondido para não assustá-la.

Todos no jardim demonstravam um grande incômodo com a presença daquele besouro rondando por ali, deveria estar tramando alguma maldade, como a maioria pensava.

Os bichos decidiram enxotar o besouro, pois acreditavam que sendo tão feio deveria estar prestes a fazer alguma coisa ruim com a bela flor, ou até mesmo com os próprios bichos.

O tempo foi passando e nada demais acontecia, o besouro agia sempre da mesma maneira pacata, chegava bem cedo ao jardim e ficava contemplando a bela flor de longe, em silêncio profundo, como se tivesse meditando.

Todos começaram a reparar que quando o besouro estava no jardim, ele não saia do lugar de onde observava a flor por nada nesse mundo. Podia estar chovendo, fazendo sol forte ou ventando e todos os bichos se recolhiam, procuravam abrigo, mas o pobre besouro parecia que estava alheio a tudo aquilo, nada o abalava.

Os bichos viram que o besouro não era mal, talvez fosse apenas louco, - imaginem vocês, - já fazia muito tempo que ele apareceu ali no jardim, nunca disse ou fez nada, apenas ficava olhando a bela flor.

A flor era bela demais, como já fora dito, porém, ninguém entendia aquela veneração toda do besouro para com ela. - Estaria este pobre diabo apaixonado? - Alguns chegaram a cogitar que sim, e logo as desconfianças de poucos viraram a certeza de muitos.

Ficou explícito que o besouro estava apaixonado, e todos riam e debochavam dele, pois em todo em esse tempo, o besouro sequer chegou perto da flor, como poderia estar apaixonado? E o pior, será que ele sonhava mesmo que isso seria possível? Não sei.

Muitos anos passaram e o besouro pacientemente no mesmo lugar, a flor já sabia que havia um tal de um besouro que gostava dela, pois os bichos mexeriqueiros e invejosos foram contar pra ela, com aquele tom de desprezo e rindo entre dentes.

A flor confidenciou aos que lhe contaram sobre o besouro que jamais o havia visto, apenas ouviu falar, e isso não foi em vão, o besouro não queria que ela o visse, queria apenas contemplar a sua beleza, e só.

Depois de mais alguns anos, o besouro finalmente se aproximou um pouco mais, e desta vez a flor pôde vê-lo também. Ela ficou impressionada como realmente ele era feio como disseram, e talvez até mais.

Num belo dia de verão, o tempo estava escaldante e quase não tinha sombra no jardim, as plantas estavam secas, a flor parecia que estava com sede. Como não tinha mais ninguém por perto, o besouro se prontificou em ajudá-la.

Ele foi até um riacho que ficava do outro lado da cidade, voando rápido sem se importar com o calor daquele dia. Chegando ao seu destino, o besouro não sabia o que fazer exatamente, e resolveu molhar as patas para levar a água.

Depois voltou voando bem devagar para não derramar nada do pouco que estava levando. E assim chegou até o jardim e encontrou a flor já bem debilitada. Não perdeu tempo e começou a passar a água nas suas pétalas.

Os outros bichos começaram a chegar e viram a flor - agora já não tão bela - e aconselharam o besouro a deixar pra lá, pois com o sol que estava fazendo não teria como ela sobreviver mesmo.

Ninguém fez nada, mas o besouro não ligou. Deu de ombros e voltou ao riacho outras tantas vezes. E os bichos diziam que se antes achavam que o besouro era louco, agora tinham plena certeza.

Desde então, o besouro foi ficando doente, em decorrência do esforço daquele dia de verão, e piorava cada vez mais.

Até que veio um fortíssimo temporal, choveu muito, e todos os bichos fugiram para suas tocas, todos menos o besouro, que já estava fraco e não conseguia mais andar e ficou ali parado, agora embaixo do galho que tinha a sua bela flor.

O besouro queria estar perto da flor, sempre foi o que mais desejou, ela agora queria estar perto dele também, mas sabia que ele não tinha mais forças para subir até lá onde ela estava.

Vendo aquilo, a flor não pensou duas vezes e fazendo uma força tremenda, ela conseguiu se desprender do galho que lhe nutria e garantia a sua vida. E com muita leveza foi bailando no ar, caindo lentamente até parar sobre o corpo do besouro, cobrindo como uma manta protetora o derradeiro suspiro dos dois.

(Mario Pinho, 19/12/2011)